O dia em que eu descobri que não era uma pessoa tão boa assim/Ou: Hipocrisia interna.

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parte I

Engraçado como nós temos a estranha mania de ditarmos tudo como certo, de dizermos o quanto
aprendemos com determinadas experiências e que elas por sua vez nos fizeram pessoas
melhores, evoluídas, nos fizeram pessoas boas. Mas o quanto ser “bom” é relativo
atualmente? As nossas redes sociais tornam tudo muito mais simples essa tarefa, basta
compartilhar ou dar um “like” que você já pode dormir com a consciência tranquila por que
atuou na causa contra a fome, a violência, a corrupção, os maus tratos aos animais, etc…
É tão automático, tão mecânico, esse pseudo ativismo de sofá. Eu não quero encher isso de
demagogia barata me perguntando quantas pessoas de fato fazem algo para mudar o que há de
ruim nesse mundo, porque de verdade who cares? A gente se acha tão pró ativo nas coisas,
tão merecedor de prêmios e medalhas, queremos ser ovacionados pelos nossos bons e
exemplares comportamentos diante as injustiças e maldades alheias. Mas quem para pra
pensar na maldade que há dentro de si? Ou melhor, quem realmente enxerga e admite essa tal
maldade interna, essa hipocrisia diante a tudo, há tantas redundâncias nos nossos discursos
diários que eu me pergunto: O que é de verdade? Quem realmente somos nós como pessoas? Até
que ponto nosso discurso é válido? E até que ponto ele é também colocado em prática? É
muito fácil se engrandecer de palavras bonitas e bom português, mais fácil ainda mostrar
para os demais o quanto temos conhecimento de determinadas causas, e sempre estamos
esperando que sejamos reconhecidos por esse vasto conhecimento e intelectualidade. Olhamos
para traz e descobrimos que não somos nada daquilo que achamos que somos, isso quando
olhamos! Quem está pronto pra admitir “Eu sou uma pessoa hipócrita”? Quem de fato quer
lidar com seus monstros internos e por sua vez admitir sua fraqueza imensurável diante das
pessoas mais simples? Isso eu digo porque queremos impressionar sempre mais, e sempre os
melhores (ou que julgamos ser os melhores). Existe dentro da gente essa vontade insaciável
de impressionar o outro, custe o que custar, esse somos nós cruamente falando. Talvez muita
gente demore uma vida pra perceber a nossa pequenez diante do resto do mundo, porque
preferimos viver em nossos pequenos laguinhos achando que somos peixes grandes, do que nos
entregarmos ao vasto oceano e sermos apenas o que somos, apenas lidando com o simples fato
de que não somos as “pessoas boas” que dizemos ser.
parte II

Durante boa parte da minha vida eu achei que tinha razão em muitas coisas, muitas mesmo!
Chegava a ser irritante o meu julgamento soberano diante tudo e todos, mas a questão é que
eu não consideraria isso tão ruim assim se na contramão eu não pregasse um discurso de
liberdade, de respeito, de fazer a diferença… A minha teoria das coisas sempre foi muito
bonita, bem esclarecida e sempre pontual, não havia onde eu perderia a razão e isso eu
aprendi desde muito cedo. Quando eu tinha meus treze anos, um professor da minha escola
disse a minha mãe em uma reunião que eu era uma garota dissimulada, durante muitos anos da
minha vida eu vivi indignada com essa afirmação, e com toda hipocrisia interna que há em
nós, eu neguei fielmente que isso pudesse ter algum tom de verdade. Essas palavras de
professor ecoaram na minha cabeça e desde então eu quis entender por que ele me julgara
assim ou mesmo como ele conseguiu perceber tal faceta, infelizmente nunca tive a chance de
perguntar isso a ele e mesmo que tivesse, não faria por motivos de que só hoje eu tenho a
consciência de que ele em toda sua sinceridade quase que cruel, estava certo. Eu me perguntei
muitas vezes, como uma garota de treze anos pode ser dissimulada? Engraçado que eu mesma
nunca acreditei na inocências das crianças, mas teimava em defender a minha própria
inocência.Talvez essa parte do texto fique mais confusa que a primeira, porque ainda estou
em processo de entender anos iludida por mim mesma, talvez eu seja realmente tão
dissimulada que tenha sido comigo mesma e nunca me dei conta.
É muito difícil pra gente assumir os próprios defeitos, e eu estou falando de defeitos
mesmo e não daquela baboseira que as pessoas falam que são defeitos só pra na sequência das
uma justificativa de por que são assim. Defeito é ruim e ponto. Não há justificativa que
amenize eles, até porque não há motivos para querermos ameniza-los. A não ser, claro, o
fato de que queremos ser “pessoas boas”, não queremos que os outros pensem que somos
egoístas, avarentos, invejosos, dissimulados, manipuladores, mentirosos e tantos outros
defeitos asquerosos que nunca em hipótese alguma nós assumimos que temos! É sempre aquele
papinho: “Meu maior defeito é ser sincero demais”, ME POUPE. Nós queremos fazer bonito até
nos nossos defeitos e essa é a maior prova da nossa hipocrisia interna.
parte III

Sem querer ser descrente do mundo ou das pessoas, mas “pessoas boas” não existem, esse é só
mais um Papai Noel do século XXI. Ninguém é bom all the time, íntegro que nem mocinho de
novela das oito, essas imagens de pessoas boas só existe pra que nós escondamos cada vez
mais quem somos, para que o defeito “Sinceridade” seja honroso e que exaltemos ele mesmo
que obviamente não sejamos sinceros de fato nem com nós mesmos, aliás, não somos sinceros
nem com quem juramos ser, quem dera com nós mesmos. Nós vivemos de modo que a opinião e a
impressão do outro sobre você é mais importante do que a sua auto avaliação, aí que está o
fruto da hipocrisia, eu acredito no que dizem que eu sou: linda, inteligente, interessante,
bondosa etc. Mas não sou capaz de acreditar no que está dentro de mim, nas minhas maldades
diárias, no meu egoísmo, na minha real intenção com as pessoas a minha volta, e mesmo
enxergando-as perfeitamente, eu prefiro negar, eu prefiro a hipocrisia a ser uma pessoa de
verdade, cheia de bons e maus atos dentro de si, ou seja, eu prefiro ser uma mentira, do
que uma pessoa verdadeiramente autêntica, seja lá o que isso significa… Talvez isso seja
ser real, mas a nossa noção de realidade anda tão conturbada que não sabemos mais em que
acreditar ou o que seguir, e eu volto a me perguntar: Quem realmente somos? Eu ainda não
sei de fato, só sei que não quero mais esconder meus monstros embaixo da cama, não quero me
orgulhar de mim mesma e varrer a sujeira para baixo do tapete, eu quero ser real em tempos
que ser artificial é nossa maior qualidade, e ser sincero é o nosso maior defeito.

Continua…

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